Tesouro na Unicamp

Importantes obras da produção musical contemporânea estão no acervo do Ciddic, aberto para consultas e futuras interpretações.

capa revista concerto

Por Maria Claudia Miguel

Um tesouro está guardado no Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural (Ciddic) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um mapa da produção musical contemporânea, traçado por mais de 6 mil partituras, está à disposição para pesquisa, pronto para ser “ouvido”.
O acervo reúne, ainda, cerca de ISO livros e 1.200 CDs de compositores reconhecidos no Brasil e no exterior. Do singular (e delicado) esboço do brasileiro Almeida Prado (1943-2010) registrado em três pequenos guardanapos às pesadas partituras com a escrita nervosa e agitada do italiano Adriano Guarnieri (1947), tudo pulsa naqueles arquivos deslizantes e manuais.

Ao caminhar entre os equipamentos, a bibliotecária Fabiana Benine abre cuidadosamente as gavetas com peças que lembram arte contemporânea. As tradicionais partituras mais parecem territórios criados por compositores arrojados que resolveram colocar o som de ponta cabeça, como o grego Iannis Xenakis (1922-2001), o judeu húngaro Gyargy Ligeti (1923-2006), a suíça de origem chinesa Tona Scherchen-Hsiao (1938), os franceses M. Levinas (1949), Paul Méfano (1937) e Gérard
Grisey (1946-98), entre outros. No total, são quase 1.200 compositores de várias nacionalidades e no momento Fabiana trabalha para colocar o acervo de partituras do Ciddic no catálogo online da Unicamp, o que deve acontecer em breve.

A seleção de autores brasileiros reúne preciosidades. A coleção de Almeida Prado é a mais consultada, com quatrocentas partituras. No acervo podemos encontrar esboços escritos pelo compositor em guardanapos que, reunidos, fizeram parte da composição Flor do Carmelo. Curiosamente, junto aos guardanapos, o músico deixou orações mimeografadas. Além das partituras para variadas formações instrumentais, Almeida Prado pintou aquarelas nas capas ou na folha de rosto das encadernações.

Ao mergulhar naquele universo, encontramos manuscritos escritos a lápis de Dinorah de Carvalho – compositora e pianista mineira que criou a primeira orquestra feminina da América Latina e foi a primeira mulher a dirigir uma orquestra no Brasil e a entrar para a Academia Brasileira de Música -, no total de 206 partituras. E mais: obras de Emilio Terraza, Luiz Henrique Yudi, Aldo e Edino Krieger.

Da pianista Beatriz Balzi (1938-2001), argentina com nacionalidade brasileira e conceituada professora responsável pela formação de grandes intérpretes, a família doou ao Ciddic sua coleção de música latino-americana para piano com obras de autores do Chile, da Bolívia, da Guatemala e do Peru.

O acervo está sempre em movimento. “Os compositores entram em contato com o Ciddic para doar suas obras – o que enriquece a fonte de pesquisa”, afirma Fabiana Benine, citando os músicos Luiz Carlos Cseka, Luiz Castelões e Eduardo Escalante.
“É muito interessante atuar em uma área em constante renovação, que contribui para promover e divulgar as artes e a pesquisa interdisciplinar da música contemporânea”, destaca.

O acervo de música contemporânea iniciou-se por meio de um convênio entre a Unicamp, com iniciativa do professor e compositor José Augusto Mannis, e a Coordenação de Documentação de Música Contemporânea (CDMC) da França. A inauguração do CDMC/ Brasil foi em setembro de 1989, depois de quatro anos de negociação entre as duas instituições, e teve o professor Mannis como coordenador por 16 anos. Atualmente, está sob direção da compositora e professora Denise Garcia.

CONSERVAÇÃO

Com cuidado e precisão de ourives, Cecilia Stucchi é responsável pelo tratamento técnico específico na área do patrimônio musical, realizando a conservação preventiva e o restauro das partituras. “O objetivo é melhorar a disponibilidade dos documentos para os usuários e tratar adequadamente esse importante patrimônio musical”, afirma Cecilia, enquanto dispõe, pacientemente, uma partitura de Almeida Prado sobre a mesa de higienização.

Atualmente, a restauração é menos agressiva, revela a profissional, que já foi produtora da Sinfônica da Unicamp. “Conseguimos, hoje em dia, manter a integridade da partitura sem perder sua identidade”, destaca. Cecilia lembra, ainda, a montagem de embalagens para partituras em papéis comprometidos por ações diversas, ora pelo tempo, ora pelo manuseio incorreto ou até mesmo pela ação da luz. “A aplicação adequada das atividades de conservação e restauração, desde limpeza especial higienização), pequenos reparos e acondicionamento adequado, contribui comprovadamente para a longevidade de nossos acervos”, explica.

O Ciddic está localizado no piso térreo da Biblioteca- Central da Unicamp. As visitas presenciais podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h.
Mais informações pelo telefone (19) 3521-6533.

Maria Claudia Miguel (Cacau) é jornalista.

Fonte: Revista Concerto – Junho/2013

http://www.concerto.com.br/revista_concerto.asp

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